Pulitzer Prize winner criticizes American and Vietnamese cultures

Correio Brasiliense and Viet Thanh Nguyen discuss The Sympathizer in this interview for Cidadaverde.com.

A Guerra do Vietnã durou quase 20 anos e deixou mais de três milhões de mortos de nacionalidade local. No entanto, boa parte da população americana costuma lembrar apenas dos 50 mil cidadãos americanos, a maioria militares mortos no conflito. O escritor Viet Thanh Nguyen chegou aos Estados Unidos aos quatro anos, em 1975, ano em que a guerra foi encerrada. Ele e os pais ganharam status de refugiado e reconstruíram a vida no país, mas a cabeça do menino sempre transitou entre os dois mundos.

Nguyen se ressente de como a vitimização relativa à guerra recaía apenas sobre os mortos norte-americanos. Por isso, escreveu O simpatizante, romance que, por apresentar uma perspectiva única e nada simpática de boa parte da sociedade americana, ganhou o Pulitzer em 2016.

Nguyen se sentia um espião dentro de casa, quando observava os “estranhos hábitos” dos pais. Estranhos, claro, para o padrão americano. Quando saía da casa, sentia-se deslocado ao observar o funcionamento da sociedade americana. O personagem que criou para o romance carrega essa ambiguidade. Trata-se, na verdade, da confissão do personagem após ser capturado pelo governo americano. Na qualidade de simpatizante do regime comunista de Ho Chi Minh, ele também se torna um crítico dos Estados Unidos.

É um livro escrito da perspectiva de quem não pretende revelar as nuances e particularidades de um povo. A premissa de Nguyen é outra. Ele quis falar de política, de identidade e de estereótipos, mas também quis fazer um livro que tangenciasse vários gêneros.

Há ação — a sequência que abre o livro e narra a queda de Saigon, ocorrida em abril de 1975, é particularmente impressionante —, romance, trama policial, conflitos de identidade (e uma bela crítica à maneira como o Ocidente encara o Oriente), questionamentos ideológicos e um pouco de filosofia em O simpatizante.

A guerra
Cresci nos Estados Unidos como um refugiado, mas também como um americano. Cheguei com 4 anos. Isso significa que cresci numa época em que a América começava a pensar a Guerra do Vietnam e o que eles realmente pensavam era na guerra como uma guerra americana. E eles não estavam interessados no que seria aquela guerra para as pessoas que eu conhecia. Nem se davam conta de que nossa história era muito diferente da contada por eles. As histórias americanas nos filmes não só ignoram esse outro ponto de vista como o destróem. Eu queria escrever de uma perspectiva diferente, que incorporasse as emoções que eu ouvi enquanto crescia. Queria, de certa forma, me vingar.

Espionagem
Eu queria escrever uma história que prendesse o leitor, que fosse divertida e por isso espionagem e suspense aparecem no romance. Mas eu também queria fazer algo divertido. Essas são as razões para explorar política, história e identidade. Para mim, a espionagem é particularmente convincente quando se trata de identidade porque um espião tem que submergir numa identidade e pretender ser outra pessoa. Eu tinha essa ideia de estar espionando a casa dos meus pais, uma casa vietnamita, na qual eles faziam coisas estranhas para o padrão americano. Eu me sentia fora do lugar o tempo todo e quis exagerar essa sensação criando um espião.

Críticas
Espero que eu destrua essa perspectiva, pelo menos para aqueles que leram o livro. É muito difícil ler o romance e não ter essa sensação de raiva, não perceber a crítica séria que faço em relação à cultura americana, assim como à cultura vietnamita, e em particular à comunista. Mas não acho que tenha destruído a perspectiva americana, porque não acho que tanta gente assim tenha lido o livro.

Minoria
Acho que minha experiência como minoria nos Estados Unidos talvez seja uma realidade também para as minorias na maioria dos outros países. Sempre esperam de nós que falemos com uma maioria. Isso, se quisermos ser publicados pelas editoras mais importantes. Então, se você quiser vender livros, a forma mais fácil seria falar para um público formado pela maioria. Mas isso distorce o que um escritor vindo de uma minoria pode dizer. Escritores que fazem parte das maiorias partem dos mesmos pressupostos de seus leitores e não precisam traduzir nada. Dos escritores das minorias, espera-se que traduzam porque se presume que vão escrever sobre algo diferente do que é de conhecimento da maioria.

O Pulitzer
Acho que ganhei o Pulitzer pela mesma razão que Colson Whitehead levou o prêmio com The end of the railroad. Uma é a questão da tradução. A outra é essa ideia de que escritores têm que falar na condição de representantes de suas comunidades.  Claro, você tem que escrever um bom romance e acho que escrevi um bom romance. Mas a razão pela qual o romance se tornou visível é porque fala da Guerra do Vietnã, eu sou vietnamita, e os americanos se sentem culpados.

Estereótipos
O livro funciona em vários registros e um deles é sobre a percepção racial dos asiáticos nos Estados Unidos, um tipo de percepção que acho que é bem difundido fora dos Estados Unidos também, onde tenha asiáticos ou orientais, como costumam ser chamados. Eu queria tratar dessas questões de uma maneira satírica. O professor é bastante satírico, porque tem essa ideia de que Ocidente e Oriente estão completamente separados. Fala-se muito das ameaças de um ao outro na geopolítica, o que pode ou não ser verdadeiro. Mas quando você tem um indivíduo, você não pode fazer isso. Um indivíduo é uma mistura de várias coisas diferentes, e dividir essa pessoa em duas, em duas colunas, é absurdo. A sátira trata disso. Essa é uma das razões pelas quais os orientais são vistos como estrangeiros nos Estados Unidos e em outras nações: não importa há quanto tempo você está no país ou há quantas gerações, você sempre será estrangeiro.

Papel político
Alguns países têm uma tradição de ficção com um papel político, na qual o autor toma para si a missão de mostrar o absurdo de sua sociedade, da democracia, da opressão. E era isso que eu queria fazer. Essa tradição é menos significante nos Estados Unidos e isso se dá porque as pessoas não veem arte e política como pertencentes ao mesmo universo. A literatura contemporânea americana é muito apolítica. Com o livro, eu queria traçar uma postura política que não existe na literatura americana mas que existe fora da literatura americana. E também queria fazer uma história mais filosófica. A literatura americana não tende a ser muito filosófica. Mas a literatura europeia é, por exemplo. Quando escrevi o romance tinha certeza que não estava escrevendo o grande romance americano, mas a versão europeia do grande romance americano, no qual eu poderia falar de política e filosofia de uma maneira que não se vê com muita frequência na literatura norte-americana.

Literatura americana
Filosofia não é muito vista na literatura americana porque a tradição do pragmatismo e do realismo é muito forte. E política não é evidente por causa do anticomunismo na sociedade americana. Houve um momento, nos anos 1930, em que a literatura norte-americana era muito política. Mas o anticomunismo era muito presente na sociedade americana e se acelerou depois da guerra fria. Isso afetou também a literatura. Por isso, a literatura americana tem tendência a ser pragmática, realística e orientada para a vida privada das pessoas como uma reação contra o comunismo. A literatura comunista, supostamente, fala de política e, por consequência, supostamente não é muito boa. Acho que isso foi importante na dinâmica que moldou as tendências apolíticas da literatura norte-americana.

Fonte: Correio Brasiliense

Category: Interviews

 

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